EDITORIAL: Precisamos falar sobre as trans

Gabriel Rosário

29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans

Primeiramente, [Fora Temer] peço licença às trans (travestis e transgêneros) para falar um pouquinho sobre seu mundo no dia em que se comemora a Visibilidade Trans. A data passou a ser reconhecida em 2004, quando militantes da causa foram recebidas pela primeira vez em audiência pelo então ministro da Saúde para apresentar as reivindicações.

Como homem, gay e cisgênero (indivíduo que se identifica com seu sexo biológico), não tenho a experiência do que uma pessoa trans passa no dia a dia. Mas, como membro da comunidade LGBT, me vejo obrigado em demonstrar empatia com esse grupo e tentar ajudá-los na sua luta contra a intolerância.

Pois bem, em qualquer esfera social, inclusive dentro da comunidade LGBT, as pessoas são extremamente diversas. Por mais que haja uma similaridade entre os indivíduos desse meio, nenhum é igual ao outro ou vivenciou os mesmos desafios quanto a sua sexualidade. Não podemos negar que os gays [falo aqui nos homens que se interessam por outros homens], mesmo que ainda vítimas de preconceito, são os que ganham maior visibilidade e estão conquistando um espaço maior sob o Sol. Na outra ponta dessa escala de aceitação social, estão os trans.

A primeira batalha de uma pessoa desse grupo já começa sendo contra si mesmo. Corpo e mente não conversam e um sentimento de inadequação é algo presente para elXs. Com o tempo e tudo mais claro dentro de suas cabeças, é preciso enfrentar a família, os amigos, um(a) namoradX, enfim, a sociedade. Como se já não  bastasse esse julgamento generalizado, dentro da própria comunidade LGBT essas pessoas também são marginalizadas.

De forma geral, ocorre uma desumanização das trans, seja tornando-as motivo de chacota, associando-as simplesmente com o sexo ou desqualificando sua identidade de gênero, por terem tido a coragem de se adequar ao que são. E, claro, não podemos deixar de associar toda essa exclusão com o velho machismo, afinal, para os machistas, quem nasceu biologicamente mulher, jamais poderá se tornar um homem; e um homem que decide agir como mulher está destruindo o bem mais precioso da humanidade: a masculinidade.

A procura pela reafirmação de uma masculinidade tão frágil, seja por parte de héteros que disseminam a homofobia, ou pela própria comunidade LGBT que “não curte afeminados” e valoriza os “discretos” e “machos”, acaba resultando em uma única coisa: morte. Somente em 2016, segundo dados do Grupo Gay da Bahia, 343 LGBTs foram assassinados. Desse número, 144 (42%) eram trans.

Para se ter ideia, ainda segundo o relatório, o risco de uma trans ser assassinada é 14 vezes maior que um gay, e, normalmente, as mortes são mais violentas, a tiro ou espancamento na rua. Além disso, de acordo com a ONG ‘Transrespect versus Transphobia’, metade dos homicídios de trans no mundo acontecem no Brasil.

Os dados são apenas para fundamentar aquilo que sabemos que ocorre no dia a dia dessas pessoas, mas, que muitas vezes, preferimos ignorar, afinal, este tipo de preconceito não nos afeta diretamente e, falo nós, pois a maioria do meu público são homens, gays e cisgênero.

A discussão está posta, os números trazidos à tona e a sociedade fala cada vez mais sobre identidade de gênero e ideologia de gênero. Entretanto, isso não basta, já que os intolerantes também tem voz nessa conversa e tentam desqualificá-la. Contra eles, podemos nos unir enquanto comunidade e parar de reproduzir elementos preconceituosos. Temos que desenvolver a empatia (olha ela de novo aí), afinal, também somos vítimas de outras formas de preconceito e sabemos qual a sensação resultante da discriminação.

Mas, atenção, lembre-se de quem você é e de seus privilégios. Pode defender as minas, as monas, as bichas, todo mundo, só que, quando uma pessoa de um grupo diferente do seu começar a falar sobre sua guerra diária contra a intolerância, você deve simplesmente calar a boca e ouvir. A empatia também está nesse ato.

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